secretária / 26 Mayo 2012

Maio

Por Lou.
Foto: Matías Rodríguez.

Quando eu era pequena queria viver numa casa com escadas, porque as casas dos programas de televisão que eu via sempre tinham escadas. Arrastava a cama do meu quarto para que a cabeceira encostasse na parede da porta, porque observava isso nas novelas. E sonhava dormir numa beliche e ter um telescópio, como as crianças dos filmes de aventuras. Ou ocupar um sótão abandonado, como A pequena Princesa.

Já um pouco mais velha, queria ser a Meg Ryan em quase todos os seus filmes, e foi em alguma de suas casas na ficção que vi pela primeira vez uma cozinha com tapete e abajur. Nunca liguei pro fato de ter um quarto pequeno, porque descobri em Descalços no parque que poderia ser algo encantador, e às vezes me pergunto se minha última devoção por móveis oficinescos não seria por causa do Mad Men. Ou se me rodeio de estantes de livros por culpa do bom Woody.

Quando vemos uma decoração no fundo de uma cena, algo fica gravado dentro da gente. E assim como os que escutam rádio conhecem mais de vozes do que imagina, ou os que usam o twitter chegam a dominar a síntese sem querer, e nós os que passamos muito tempo vendo ficção absorvemos como esponjas, mais imagens, combinações e estilos do que podemos imaginar.

Logo misturamos com outros dados, objetos, e aos poucos, dia após dia, montamos os cenários das nossas vidas. Para um eterno plano sequência.