todo secretária

Fevereiro

Por Lou. Não é que não saio na rua; é que estou trabalhando duro. Tristeza não tem fim, mas as férias sim. Eu não tenho televisão para me distrair, mas sim duas tremendas janelas. São uns quarenta metros, um prédio com mil janelas. Na esquina, outro com grandes varadas. Neste canto, eu aqui sentada, dobrando folhas e com o olhar livre. Olá TV Voyeur. Sempre gostei de imaginar vidas alheias. Eu e meu pai temos um jogo: olhamos as pessoas passarem e adivinhamos o que fazem de suas vidas. Por isso, quando vejo a menina do sexto andar de frente arrisco: ela é de Neuquén, trabalha de garçonete, estuda teatro e coleciona cactos. O senhor do quarto andar sofre de insônia. Sua mulher parou de fumar, mas esconde maços de cigarros no banheiro. Ninguém visita os avôs do terceiro. Ela faz Tai chi chuan e costura para fora. Aquela é norueguesa e sente saudades de alguém. Aquele é pintor e é mudo.

Janeiro

Por Lou. Já temos a casa, anunciou e três dias depois chegamos as malas, as cestas e nós. Abrimos as persianas, varremos e colocamos hortências em frascos de geléia. Alguns foram para a cozinha preparar a comida; outros foram nadar. Das estantes escolhemos a travessa rosa da avó e o bol de flores laranjas. Alguém colocou a toalha de mesa branca, e ficamos escutando uma mistura de Virus e Stevie Wonder. Penduramos uma guirlanda mexicana, brindamos, jantamos na nossa festinha caseira e, á meia noite, nos abraçamos. Cada um pegou uma bolsa e saímos a caminhar embaixo dos fogos, planejando viagens. Logo vieram os presentes surpresas, os torrones e as brincadeiras.

Catarse

Por Maru Leonhard Foto de Macarena Ternicien Loma-Osorio Domingo. Nove da noite. Diria que estava alterada, mas isso seria suavizar demais o meu estado de ânimo, que se expressaria corretamente com qualquer uma das seguintes maneiras: tinha um terrível ataque de ansiedade, estava loucamente nervosa ou de repente todo o meu mundo estava bagunçado. Os motivos eram muitos, mas principalmente um: há um mês eu estava desempregada, e na sexta fui a uma entrevista de um trabalho que eu gostei muito, e apesar de ter aceitado, o ok final do meu novo chefe nunca chegava.

Mudança

Por María Embrulhar e esvaziar Para as pessoas sensíveis como eu, empacotar cada coisa é um drama. Olho cada quadrinho com olhos de última vez antes de embrulhá-los e guardá-los. Eu sei que eles me seguirão onde quer eu eu vá, mas é que eu gosto deles assim, exatamente como estão! Até que me canso e quero liquidar a questão o quanto antes. O chororô vai embora, e vem a irritação quando percebo que estou me mudando com uma tábua de madeira que peguei na rua e nunca usei. Como foi que acumulei tantas coisas desde a mudança anterior? Ou sempre trasladei porcarias? Na última noite a desolação é total: caixas apilhadas, móveis fora do lugar, manchas dos esbarrões na parede e um eco deprimente. Esta não é a casa que vivi durante todo este tempo. Minha casa está dentro das caixas.

A dor

Por Maru Leonhard Foto de Lou Era uma vez paredes laranjas que antes eram creme. Inauguramos as paredes laranjas no dia 09 de julho de 2007, nosso primeiro dia morando juntos, minha primeira independência, quando ainda éramos nós e pensavamos que essa sala com duas paredes laranjas e duas paredes brancas eram o começo de uma nova etapa. Quando pensavamos em nosso lugar feliz. Nosso lar. No dia 09 de julho de 2009 voltei a ter independência, desta vez para estar sozinha neste apartamento de paredes laranjas, chão de madeira e lembranças que se viam e se inalavam por pelos cantos: um lar é, entre outras coisas, uma coleção viva de lembranças. No domingo seguinte ao dia da independência peguei meu décimo terceiro e tomei uma decisão: pintar as paredes de branco e as brancas de rosa chiclete.

Sonhos de grandeza

Por Carolina Tapia Foto de Gastón Torres A manta quase explode de tantas cores, foi comprada numa viagem e quebra a monotonia do impecável sofá de linho cru de três lugares. Sobre a mesa de centro, descansam os livros organizados por histeria e por tamanho. A bandeja sustenta um jogo de porcelana inglesa, um tesouro herdado – merecidamente – de alguma tia da qual se deveria ter muita paciência, além da quantidade de lã enquanto ela bordava e bordava. Esses objetos estão presentes na minha casa, mas não se equivoquem. Mesmo que estejam estampados sobre a página dupla central de uma revista de decoração espanhola, umas dessas que comprei para roubar idéias e para me perguntar como se faz Amparo de Barcelona para manter esse lar “branco Ala”, com seis meninos e tudo. E mesmo que meu sofá não está nada mal – uma maravilha de segunda mão conseguida na internet – , a sensação de relax se dissolve quando ao deitar-me para ver um filme, sinto um pedaço de plástico furando minhas costas. E …

Relaxo

Por María Foto de Gabriela Menichetti Tomava um café com uma amiga que estreiava a independência. Escutava suas novas experiências e sensações sobre a vida de adulto. A maioria muito boas, mas uma contra alarmante:

Ficar dentro de casa: imperdível

Por Sol Foto de Lou De manhã, café com leite no quintal e se chove, na cama. Rádio: Sábado FM, domingo AM. Leitura de contos de Woody e poesia de Benedetti. Simona lutando com os pom-pons que estão pendurados na janela da sala. Gata contente e dependente quando estou em casa. Flores no banheiro. Coca cola com gelinhos.

A decolagem

Por Carolina C. Foto de Mariela Paz Izurieta Tenho vinte e nove anos e em breve, em outubro, será o primeiro aniversário da minha independência. Porque eu sai da casa dos meus pais? Bom, em algum momento todos tem que ir, mas no meu caso foi porque eu estava atravessando uma crise existêmcial, dessas que te governam e que duram, e duram.

Dias

Por María. Eu estou cem por cento dentro do grupo das pessoas que gostam de adicionar charme na casa. O que eu chamo de charme? A palavra AMOR. Faço planos para que ela fique linda e quase sempre coloco em prática, me esforço para solucionar conflitos quando existem, e até penso nela quando não estou. Mas não é sempre que isso acontece. Existem dias de amor e existem dias dos outros. Hoje me levantei e minha casa apresenta as seguintes imagens: