todo secretária

Dezembro

Por Lou. Foto: María. O que é uma casa? Minha mãe viaja o tempo todo e em cada quarto que ocupa gera-se uma ordem. É isso? É uma casa meio móvel que se leva internamente? Ou é uma mistura de estilos da convivência? meu sofá, seu quadro, uma união imprevisível. É o que jogamos fora ou é o que compramos? Talvez seja as pessoas que contêm. Minha tia vivia em duas casas: uma suja e cinza no inverno, e outra limpa e feliz quando a visitávamos. É um estado de ânimo? Um sábado a tarde com chuva é uma casa, mas com Sol não. Não? Ou é ao contrário?

Novembro

Por Lou Foto: Violeta Renyi Não sei bem como funciona a distribuição dos talentos na vida. Desconheço. Alguém sabe dançar, outro é o Messi…Para mim, a sub-categoria que mais me intriga é a dos talentos domésticos: a habilidade de fazer um banquete com as sobras de ontem, ou o dom de limpar os vidros sem deixar marcas, a graça de iluminar ambientes…Creio que tenho algumas virtudes, não me queixo, mas invejo a que me falta: a Mão verde.

Outubro

Por Lou. Foto: Silke. Se o trabalho invade, a casa espera. Suporta os papéis, não incomoda. Aceita a roupa suja, o pó, os vidros com chuva seca. Se me apaixono, o ar corre. O fícus cresce, a rádio sobe. E se viajo, tudo hiberna. Somos um time, eu e a casa. Compro flores pra ela, limpo o forno, aspiro. E ela é legal comigo. Mas algumas vezes brigamos.

Setembro

Por Lou. Arrumo com a desculpa do encontro, o goulash da amizade de cada ano. Há flores, há velinhas, e no centro da mesa bebidas que fazem mal. Do nada, tudo é voz, tudo é gente deixando seus casacos na cama; um bando comendo direto da travessa treze adultos numa festa de pijamas.

Agosto

Por Lou. Foto: Silke. Os lençóis estão supervalorizados. Já perceberam isso em outras partes do mundo e inventaram o edredom. Eu melhorei o sistema e ninguém reconhece: durmo diretamente sobre o mesmíssimo colchão. Bom, de vez em quando. Se a minha mãe ficasse sabendo, gritaria comigo e perguntaria se estou bem, se está acontecendo algo comigo. Pois sim, às vezes acontece algo comigo e minha auto estima me abandona, e outras vezes simplesmente acontece que tiro os lençóis, limpo a casa, aproveito a vida e quando a noite chega estou muito cansada para me dar ao trabalho de colocá-los. Acolchoado e apago a luz. Porque é fácil mordendo uma torrada e vestindo uma jaqueta, esticar a cama já arrumada, mas outra coisa é alisar organizadamente as camadas começando do zero. TODO MUNDO SABE.

Julho

Por Lou. De vez em quando, apesar de muitas mudanças, quando penso em minha infância, penso em uma casa em especial. Era enorme e estava cheia de portas e armários. Cada quarto tinha uma parede com um guarda-roupa que ia até o céu. De dia, era esconderijo de jogos; de noite, eco de canos. Desde os armários até as gavetas-cabeceira, quase cada móvel e parede deste andar ocultavam estantes. Me lembro que tínhamos um sapateiro embutido, e também um baú secreto: a escada de acesso estava acima do armário das roupas brancas, mesmo que só nós sabíamos. Se não tínhamos espaço para guardar coisas, improvisávamos no teto.

Junho

Por Lou. Café com leite, o pão e o jornal. Diminui a estufa, aumenta o rádio. Baixo a série, rego as plantas. Comemos na panela, tomo banho. Assim jogados. Quando começamos? Quebra-cabeças ou generala? Dois cochilos torpes, mal abrigados. Não aconteceu se não lembramos. Um livro triste, bolo caseiro, eu a novela, você seus contatos.

Maio

Por Lou. Foto: Matías Rodríguez. Quando eu era pequena queria viver numa casa com escadas, porque as casas dos programas de televisão que eu via sempre tinham escadas. Arrastava a cama do meu quarto para que a cabeceira encostasse na parede da porta, porque observava isso nas novelas. E sonhava dormir numa beliche e ter um telescópio, como as crianças dos filmes de aventuras. Ou ocupar um sótão abandonado, como A pequena Princesa.

Abril

Por Lou. Foto: María. Entra luminária, sai quadro. Sai quadro, entra cortiça. Pinto moldura, afasto almofada. Sofá em oferta, avanço a sesta. (Mas perco espaço.) Tiro flores, entra fruteira. Lâmpada de baixo consumo, retrocedo dez casas. Mudo de PC para laptop, recupero espaço. Acerto a cor da parede, escolho de novo.

Março

Por Lou. A casa não avança e o plano vai ficando cada vez mais lento. Acho que é a época. Procuro idéias na internet, e nada: a linha entre a inspiração e a frustração é muito fina. Plano B: jogo coisas no lixo e presenteio outras. Que não se trate de organizar, e sim de inovar. Plano P: passo horas olhando a parede branca e sonho com opções meio impossíveis. Plano Z: vou dormir com vontade de mudar de casa. Deitada, vejo o canto e imagino um escritório. Não. Uma luminária. Um pequeno sofá. Menos.